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Quando bate aquela saudade



Outra vez ela estava sentada sozinha na sua cama de casal olhando as estrelas no céu pela janela do seu quarto. Era mais uma madrugada que ela sentia falta de mais alguém em sua cama. Quando a saudade vem, é ali que ela fica, mergulhada em recordações e lágrimas. Apesar de transparecer ser forte, a saudade consome o seu íntimo. Saudade da infância feliz, saudade dos colegas de escola, saudades do primeiro emprego, do primeiro beijo. A lembrança do primeiro beijo ainda causa um certo conforto; parecia que ele se repetia todos os dias em suas memórias. Com os olhos marejados de lágrimas, ela pegou um cigarro, o isqueiro saiu da cama e foi para a janela, como se quisesse ficar um pouco mais perto das estrelas. Ligou o rádio, Paulinho Moska cantava "A Seta e o Alvo", sua música preferida. Já previa a dor no coração antes mesmo de chegar ao refrão da canção. Lembrou das noites estreladas ao lado do seu amor, das juras de amor, do espelho do banheiro embaçado e do show do Kid Abelha. Ela nunca compreendeu o fim, mas aceitou sem questionamentos. Quando a saudade bate à porta, vem à tona o cheiro do perfume, as lembranças do toque macio sob a pele, da voz que arrepiava, do felizes para sempre... Dormiu.

Feriado. Proclamação da República do Brasil. Dia de dormir até mais tarde, mas ela acordou cedo com o barulho ensurdecedor da britadeira. Foi até o banheiro, olhou-se no espelho e sentiu vergonha do seu rosto inchado. Lavou o rosto, olhou novamente pro espelho e lembrou do "Eu te amo" escrito todos os dias em batom vermelho. Andou até a cozinha e preparou café, sem açúcar. Ligou o rádio novamente, e desta vez não prestou atenção à música, pois os pensamentos estavam longe. Olhou para o seu guarda-roupa todo bagunçado e, em meio a bagunça, viu uma caixa que continha todos os bilhetes de amor que seu grande amor escreveu pra ela e fotos, muitas fotos. Quis pegar a caixa e ler os bilhetes, mas a coragem a impediu. Por um instante sentiu vontade de colocar fogo em tudo, mas percebeu que o fogo só queimaria uma parte das memórias. Seria necessário colocar fogo na casa toda, talvez em seu próprio corpo também. O desejo suicida dissipou-se no ar com o toque do seu celular. Era sua mãe. Não atendeu. Estava indisposta. Não queria falar com ninguém.

Desligou o celular e foi tomar banho. Saiu do banheiro e, antes de voltar à cama, pegou um livro em sua estante para ler, mas não conseguiu se concentrar na leitura. Deixou o livro de lado e se deitou, mas também não conseguiu dormir. Quando bate aquela saudade, nada consegue suprir. Porém, ela começou a perceber que tudo naquela casa lembrava outra pessoa que não fazia mais parte da sua vida; não por sua escolha, mas por escolha do destino. Afinal, ninguém é de ninguém. Aquele pequeno cômodo que foi construído para abrigar duas pessoas não fazia mais sentido, porque não havia mais duas pessoas ali, apenas uma. A cama de casal só era utilizada por uma pessoa. Sentiu a necessidade de mudar, de sair da rotina, de mudar de vida e esquecer o que passou. Sentiu o seu corpo se estremecer quando pensou em esquecer o passado. Ligou para sua mãe e avisou que iria morar com ela no Canadá. Trocou de roupa e saiu de casa. Olhou pra trás e sentiu vontade de voltar pra dentro e se trancar em seu quarto, mas foi forte o suficiente para continuar andando. Colocou o fone nos ouvidos e deixou que cada um de seus passos conduzissem a sua vida ao encontro da felicidade.



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