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RESENHA - Os negociadores de Marco Moretti



por André Ferrer*

Um romance onde figuram índios, bandeirantes e jesuítas acaba de ser lançado e o que posso afirmar depois de ter lido suas quase 500 páginas está, realmente, além de qualquer expectativa acerca de um livro sobre tais entidades históricas. 

O título do livro é Os Conquistadores, mas bem poderia ser Os Negociadores.

Há negociação entre os homens e a natureza. Entre Frei Bartolomeu, um jesuíta, e Dom Francisco, um sertanista. Há negociação entre católicos, judeus e sarracenos. Contudo, não se trata de comércio. A negociação a que me refiro acontece no âmbito das relações entre tipos humanos em cima dos quais, até hoje, pairam as terríveis sombras da desconfiança, da injustiça e da violência. Deste modo, em face dos perigos da terra do Pau Brasil, ninguém está livre da negociação. Dois inimigos mortais em 1572 são capazes de criar alianças por causa de uma tribo antropofágica, de uma jiboia gigante ou de um simples grito de mau agouro nascido nas trevas da mata. Os instintos mais básicos, naquele mundo insalubre, transformam negros, índios e europeus, primeiro, em aliados, depois, em grandes amigos. Vistas de perto, graças à boa literatura que o autor, Marco Moretti, constrói, todas aquelas forças contrárias que habitam os livros escolares aparecem redesenhadas. Seus traços são complexos. Reveladores.

O que é uma sociedade se não o produto de uma negociação dinâmica entre as suas partes constituintes? Que sociedade, em qualquer época conhecida, não nasceu do confronto de pontos de vista diferentes? Os Conquistadores, a cada parágrafo, lembra o leitor exatamente disso. Um leitor, decerto, bastante marcado pela dogmática do politicamente correto; eu, você, leitores dos dias de hoje, que carregamos muita dificuldade para, nas diferenças e no embate entre elas, enxergarmos ingredientes decisivos na formação e na manutenção de uma sociedade. Como resultados da nossa época, esperamos encontrar uma estrutura maniqueísta no romance Os Conquistadores o que, felizmente, Moretti faz questão de evitar.

Ele, assim, produz um vigoroso estranhamento no leitor. A meu ver, uma força que manteria qualquer um preso ao livro mesmo se a trama em si não o conseguisse. Marco Moretti desafia a comodidade lógica do leitor enquanto anima os seus personagens com espíritos dificilmente encontrados nos livros de História.

A despeito da linguagem exuberante – a qual, aliás, funciona muito bem para o tema –, existe uma cuidadosa isenção. Não há didatismos. Há vozes em primeira pessoa perfeitamente disfarçadas na voz do narrador em terceira pessoa.

Sendo assim, qualquer intenção de quem conta a história fica em segundo plano. Ou, pelo menos, cria-se tal ilusão que é suficientemente duradoura. Moretti, na verdade, joga todas as suas intenções no plano da metalinguagem. Por vezes, ele nos nomeia: somos, de fato, aqueles leitores. Lembra? Vamos ao cinema, jogamos videogame, lemos quadrinhos e até somos capazes de imaginar o rosto de um bandeirante assim: “uma barba rala brincando no maxilar quadrado de Dick Tracy”.  

Mais adiante, perto do final do livro, quase é possível escutar tal nomeação. Através de brincadeiras gráficas, entendemos a simples mensagem que diz: o destinatário é você, leitor, você, nascido pouco antes ou pouco depois dos anos de 1990; jovem demais para não acreditar que o melhor a se fazer pelo mundo é dizimar toda e qualquer diferença; igualar as diferenças nem que seja por força de Lei.

Para nos surpreender ou chocar, Os Conquistadores, na sua estrutura profunda, repete à exaustão que o mundo em que nascemos só existe justamente por causa das diferenças e dos esforços entre os distintos negociadores. A contento, sem estragar o prazer de uma trama interessante, Marco Moretti lança mão de alguns recursos não textuais nos capítulos 19, 31, 32, 45 e 46 e, assim, diz claramente a quem se refere. 

Afinal, do que adianta se dirigir a uma geração e não deixar claro que é para ela o recado? Moretti faz justamente isso através da metalinguagem.

A partir de então, o estranhamento caminha para um entendimento. A boa literatura tem esta nobre função: humanizar ideias vagas e torna-las tão complexas quanto nosso vizinho ou nossos pais.

No romance, Moretti atribui várias camadas aos seus negociadores. Frei Bartolomeu, por exemplo, faz um impressionante balanço espiritual na página 82: “constatou Bartolomeu que se enfraqueciam os liames que o ligavam não só à Companhia de Jesus, mas ao próprio edifício da teologia cristã (...) Era nesse estágio que se encontrava sua crença no momento em que temerosamente dava largas passadas ao encontro do desconhecido.”

Chega a ser comovente, no mesmo parágrafo, descobrir que a moeda disponível para o jesuíta negociar com o sertanista, deteriorava-se: Frei Bartolomeu sabia “muito bem que as frases de efeito com que retrucara ao capitão” Dom Francisco “eram apenas decorações desbotadas em uma parede.” Assim, logo no Capítulo 13, assiste-se a um dos grandes negociadores do livro, um padre, iniciar a troca, pelo instinto e pela força, de um dos mais elegantes e sofisticados sistemas de persuasão criados no mundo civilizado.

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*André Ferrer é escritor. Publica quinzenalmente no Crônica do Dia.
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EDITORA: Novo Século (Talentos da Literatura Brasileira)
NÚMERO DE PÁGINAS: 480
ONDE COMPRAR: Saraiva (livraria virtual)
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Jornalista, mestre em Comunicação Social pela USP e coordenador e professor do curso de Jornalismo na Universidade Paulista (Unip), Marco Moretti trabalhou em diversos órgãos de imprensa, como o extinto jornal Folha da Tarde, e como editor-chefe na divisão infantojuvenil da Editora Abril, onde foi responsável pelos títulos dos heróis Marvel e DC no Brasil. Seu primeiro romance, Eu, Sumé, publicado em 2011 também pela Novo Século, ficou entre os finalistas da categoria Juvenil do Prêmio Jabuti de 2012. Atualmente, publica com regularidade contos e resenhas críticas de cinema, literatura e HQs em seu próprio blog, Diário do Moretti (www.diariodomoretti.com.br). Os Conquistadores é seu segundo romance.


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